Em 1928, um fazendeiro achou pedaços de rocha que considerou interessantes. Levou para análise e descobriu que se tratava de calcário. Com isso, a área foi vendida para a Companhia Nacional de Cimento Portland Mauá, que aproveitou o material na construção da Ponte Presidente Costa e Silva (Rio-Niterói) e do Estádio Mário Filho (Maracanã). A fábrica foi visitada por grandes personalidades, incluindo alguns presidentes da república, sendo considerada uma das experiências mais bem-sucedidas de fabricação de cimento no país.

De 1933 a 1984, a companhia foi a responsável pela ascensão do bairro de São José, financiando toda a infraestrutura do bairro (incluindo estrada, energia elétrica, moradia, saúde e educação) e empregando a maior parte da população (CASTRO & MACHADO, 2009). A companhia comprou a Fazenda São José (antiga Salvaterras) para a exploração mineral e, com essa atividade, logo se descobriram vestígios arqueológicos, evidenciando a presença do homem pré-histórico no local, e a presença de fósseis pré-históricos. (BERGQVIST et al., 2006, p.13).

A localização da antiga propriedade da companhia é onde se situa, hoje, o Parque Natural Municipal Paleontológico de São José de Itaboraí. Com o tempo, as escavações para a retirada de material tornaram-se muito profundas e atingiram um lençol freático, ao passo que o custo alto para drenar o lençol freático e a descoberta de camadas de calcário com melhor teor de cálcio tornou inviável a continuação da exploração mineira na área (CASTRO & MACHADO, 2009).

Quando o calcário terminou, em 1984, restou uma depressão de 70 metros, que foi progressivamente coberta com água da chuva e de veios subterrâneos, erguendo um grande lago. Seis anos depois, em 1990, a Prefeitura Municipal de Itaboraí declarou a área de utilidade pública, ocupando-a como espaço educacional (sede da Escola Técnica de Agronomia) e, posteriormente, como área de moradia para a população do município, que utilizava o lago como área de lazer.

Ainda de acordo com Castro & Machado (2009), logo após a desativação da atividade mineradora alguns pesquisadores tentaram encontrar uma forma de proteger esse sítio; único no estado do Rio de Janeiro. Porém, infelizmente, duas solicitações de tombamento ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) foram canceladas na época.

Somente através de um processo de desapropriação, em 1995, nascia o Parque Paleontológico de São José (PPSJ), eleito pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (SIGEP), órgão ligado à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), um dos patrimônios da humanidade.

Em 2018, o PPSJ foi reclassificado segundo o Sistema Nacional de Conservação da Natureza (SNUC), passando a ser denominado Parque Natural Municipal Paleontológico de São José de Itaboraí (PNMPSJI). Ficou estipulado ainda a criação de uma Unidade de Conservação da Natureza Municipal na categoria de proteção integral dos bens naturais. Com os principais objetivos de preservar e recuperar os ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza da região; garantir a proteção da vegetação remanescente da mata atlântica do local, entre outros. A concessão permite a retomada das pesquisas científicas nos sítios arqueológicos, geológicos e paleontológicos.

De acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, o Parque também foi também consolidado como Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural no Brasil em 1937.

No PNMPSJI já foram descobertos fósseis de diversos mamíferos cenozoicos, gastrópodes, répteis e anfíbios, destacando-se o tatu mais antigo do mundo e o ancestral das emas. Ambos do Paleógeno, datados de cerca de 55 milhões de anos. Foram achados, também, fósseis de preguiça gigante e mastodonte, da Idade Pleistocênica (aproximadamente 20 mil anos).

Obs.: Fotos retiradas dos painéis informativos do PNMPSJI.

2 comentários em “Histórico

  1. Edson Oliveira Responder

    Conheci esta importante área de extração de calcário, ainda nos anos de 1960. Acontecia uma festa para as crianças filhas de funcionários da Companhia de Cimento Portland Mauá, no local, e fui convidado para a festa por um vizinho, empregado da empresa. Ainda me lembro da farta distribuição de picolés da Kibon e de brinquedos…
    Outro fato que se fixou na minha lembrança foi ver de perto a “maior escavadeira do mundo”, realmente um gigantesco monstro de aço, aos meus olhos infantis, mas que era enorme mesmo. O trem que transportava o minério, extraído em São José, para Guaxindiba estava em atividade, porém , com menor intensidade. Claro, o lago não existia. Apenas uma imensa e impressionante cratera.
    Todos nós sabemos que o calcário é resultante de uma decomposição físico-química de ostras e congêneres marinhas, ao longo de milhares de anos. Então concluímos que toda aquela região outrora fora parte do vasto Oceano que denominamos Atlântico.

  2. João Baptista Alves Responder

    Passei boa parte da minha infância andando por aquela linha de trem e explorando muitos pontos daquela área. Era final dos anos 1970 e início dos anos 1980, portanto, já mais para o fim das atividades da companhia. Em 1978, ingressei na primeira série na Escola Estadual Francesca Carey. Meus pais estudaram lá, assim como tios e primos também. Sou filho de um dos funcionários da Portland. Toda a minha família trabalhava lá tanto por parte de pai, meu avô Heitor, quanto por parte de mãe, meu avô Domingos. Saudades desses tempos que não voltam mais. Todos já se foram, até a terra boa que era São José já não é tão boa assim.

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